Stranger Things 2

Hawkins novamente virada ao contrário. Quem vamos chamar?

 

A espera era dolorosa para muitos, mas também para muitos ficou resolvida com uma ou outra noite de maratona. Está vista a tão antecipada segunda passagem por Hawkins. Falta saber se corresponde às altas expectativas.

Stranger Things foi um fenómeno quase tão inacreditável como o mundo do Upside Down. Recusada por muitos dos maiores estúdios, chegou às mãos dos produtores Shawn Levy e Dan Cohen, que acreditaram no projecto e encontraram uma casa na Netflix. Era para ser apenas mais uma série original da plataforma, criada pela dupla desconhecida dos Irmãos Duffer, com um cast praticamente desconhecido, exceção feita a Winona Ryder e Matthew Modine, sem qualquer máquina de promoção, ao contrário de casos como House of Cards ou Orange is the New Black, por exemplo. Foi um fenómeno de popularidade que surgiu do “boca a boca”. Foi crescendo, principalmente pelo quão ridiculamente fixes eram as referências à década de 80 e acima de tudo por causa daquele grupo de miúdos adoráveis, que depois do boom se desdobraram em entrevistas onde conquistaram ainda mais fãs. Com a inglesa Millie Bobby Brown a surgir como uma estrela imediata.

Agora era diferente. A segunda série que os criadores querem que chamemos Stranger Things 2 em vez de segunda temporada, demorou mais de um ano a chegar à plataforma e carregava em cima uma expectativa tão alta que deve ter feito todos os envolvidos suar um bom bocado.

E então? O veredito?

De uma maneira geral, até fiquei surpreendido com a qualidade da sequela. Eu até sou um gajo positivo, mas não estava à espera de gostar tanto. Na verdade sabia que era quase impossível fazer algo tão bom como foi a temporada original. Mas os Irmãos Duffer conseguiram mais uma vez agarrar-me em mais uma maratona, que só foi interrompida no fim do quarto episódio, porque esta coisa do corpo humano insiste que é suposto um gajo dormir. Juro que tentei contrariar esta imposição, mas não deu e lá tive que me contentar com duas sessões.

É verdade que os irmãos pegaram em temas muito populares que agradam a muito do público. Muito porque eles são mais dois fãs como todos nós. Também eles são fascinados pela magia de Spielberg e pelas histórias de Stephen King. Isso está presente em todos os frames e não só em detalhes de figuração ou em sons que nos transportam para os anos 80. Está presente, principalmente na forma. Na estrutura. Na exploração do desconhecido com que qualquer uma criança fantasiava. Nesta sequela tudo foi ampliado. As ligações entre personagens (também amorosas) são mais intensas, os perigos aumentam, a “família” cresce.

É tudo perfeito? Claro que não. Também seria impossível corresponder às altas expectativas de toda a gente. Olhando por essa internet fora, desde as mais positivas opiniões (a maioria) e as mais negativas, todas invariavelmente vão parar ao já controverso episódio 7. Mas para falar disso, vamos ter que entrar no Upside Down onde o Demagorgon e amigos estão carregadinhos de spoilers. Por isso daqui para a frente, precisam de ter a coragem dos nossos pequenos heróis e acima de tudo, já terem visto todos os episódios até à data.

 

 

Uma das personagens novas com que somos brindados, é Kali (Linnea Berthelsen), aka Eight, que partilha com Eleven (Millie Bobby Brown) o passado de experiências no laboratório de Hawkins. Kali consegue controlar a mente de quem a rodeia e é ela que faz uma espécie de treino à la Yoda a Eleven para que aumente os seus poderes. Esta parte da história é passada em Chicago e todo o episódio é feito quase como um piloto dentro da série. Foi uma decisão de risco, mas que os criadores defendem com a vontade de não ter medo de arriscar e fazer diferente. Esta opção tem dividido opiniões, mas na verdade é um pedaço importante da narrativa de Eleven e pode ser também uma dica para o que vem aí para as próximas séries que já estão no forno. Numa época em que parece que não se pode fazer nada que não seja seguro, e muitas vezes se vai pelo caminho de sequelas de filmes com sucesso, remakes ou reeboots de clássicos, é refrescante ver que há quem não tenha medo de arriscar e de eventualmente falhar.

E dizem vocês: mas ah e tal, afinal isto não era cenas do Spielberg e do King? Não. Aqui há é um amor ao género e à época, que é canalizado para uma história original, divertida, e para o desenvolver de uma mão cheia de bons personagens que é meio caminho andado para ter algo especial.

Toda a miudagem deu um salto nas suas interpretações. As relações, nomeadamente as amorosas, são o contraponto para o crescendo da ameaça vinda da realidade paralela. Enquanto Will (Noah Schnapp) se vai apercebendo que, apesar de não estar no Upside Down, algo ainda está presente dentro dele, o resto do grupo sente também dificuldades em voltar às rotinas como se nada tivesse acontecido. Principalmente Mike, que não quer acreditar que Eleven desapareceu e continua a tentar contactá-la. Já Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) viram as suas atenções para a nova rapariga que vem da California e parece lhes ter roubado o primeiro lugar num dos jogos do salão de Arcada local. A menina-rapaz Max (Sadie Sink), entra no grupo e é também ela uma boa surpresa.

Curiosamente uma das maiores surpresas já vinha da primeira série. A participação de Will na primeira série foi limitada, mas nesta é bastante mais exigente. Os Duffer sabiam que o rapaz era bom, mas nem eles imaginavam que iria ser tão bom. A evolução gradual do seu personagem é impressionante para qualquer actor, quanto mais para um de apenas 12 anos.

Ainda recebemos mais alguns novos personagens que compõem o ramalhete. Além de Billy (Dacre Montgomery), o novo bully elevado ao quadrado, que vem da California com a sua irmã Max, temos mais dois actores que vêm directamente das produções dos anos 80 que tanto nos marcaram. Tanto Paul Reiser, na pele do cientista Sam Owens, como Sean Astin (Goonie OG) no papel do adorável Bob, estiveram à altura, provando também eles que se há coisa em que os Duffer são bons é a escolher os seus actores.

Tudo nesta série é feito com tanto cuidado e atenção ao detalhe, que se torna difícil apontar muitos defeitos. Nem deve ser esse o nosso objectivo. Devemos é sorrir com a tripla Dustin-Max-Lucas. Torcer para que Mike e Eleven fiquem juntos para sempre. Assistir enquanto Joyce (Winona Ryder) e Jim (David Harbour) educam e defendam a miudagem. Aceitar que há espaço para a redenção, como é o caso de Steve (Joe Keery).

Encontramos-nos todos no baile da escola e vamos vendo e re-vendo estes episódios enquanto não chegam os próximos. Talvez só em 2019…

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