Stranger Things 2: Uma mixtape que vai até às 11

Guia musical para a série mais encantadora de 2017

 

Um dos fenómenos mais inesperados de popularidade quando lançou a sua primeira temporada, “Stranger Things” tinha um universo inteiro de elevadíssimas expectativas para satisfazer. Não sei bem que raio de magia negra os Duffer Brothers têm ao seu dispor, mas conseguiram até superá-las.

Há muitas pontas para desembaraçar neste fenomenal pedaço de construção de narrativas e fabulosos novos mundos, por isso não me atrevo a achar que vou conseguir falar de todas.

Assim, decidi, antes, inspirado por um delicioso jogo lançado pelo Spotify, que nos atribui personagens mediante os nossos gostos musicais, decidi fazer uma singela viagem musical por alguns dos temas que dominaram este segundo capítulo. São onze músicas porque… claro que são onze músicas.

Por isso, sentem-se na vossa poltrona reclinável, coloquem a cassete com uma etiqueta escrita à mão no vosso Walkman castigado de tanto uso e carreguem no “play”:

 

“Love Is A Battlefield”, Pat Benatar (1983)

“We are young, heartache to heartache we stand”

Passou um ano em Hawkins, Indiana, e com mais um ano de idade, as crianças de “Stranger Things” mudaram também um pouco. Se, na primeira temporada, o romance crescente entre Mike e Eleven era a exceção, desta feita também Lucas e Dustin se deixam enredar nas lides do amor – especificamente num conturbado triângulo amoroso com a nova aluna: a rebelde Max. Como é costume nos Duffer Brothers, o tacto com que eles mostram as subtilezas das relações juvenis é uma das principais razões que tornam esta série tão emocionalmente irresistível.

 

“Ghostbusters”, Ray Parker, Jr. (1984)

“If there’s something strange in your neighbourhood”

Outra coisa que regressa em força neste segundo volume são as homenagens nostálgicas aos anos 80. Para além da música, que obviamente inspirou este texto, é dado um grande destaque à loucura que foi o fenómeno “Ghostbusters” no ano de 1984. Nas inúmeras referências que estão espalhadas um pouco por todos os episódios, uma das mais interessantes será talvez a inesperada ligação entre Dustin e o “pollywog” Dartagnan – uma relação que começa por lembrar “E.T.” e acaba por degenerar numa versão em esteroides de “Gremlins”.

 

“Thriller”, Michael Jackson (1984)

“Something evil’s lurking from the dark”

Se muitas coisas se mantiveram relativamente iguais, outras cresceram consideravelmente – em âmbito e impacto. Na primeira temporada, todo o caos foi causado por um singelo Demogorgon. Um ano depois, somos brindado com um pequeno pollywog que se transforma numa matilha de demodogs e até um gigantesco Mind Flayer, para já superado mas longe de estar vencido. Nas prometidas temporadas que se seguiram, está claro que o poder dos monstros do Upside Down só vai crescer – resta ver como Eleven os irá tentar acompanhar.

 

“Sweet Dreams (Are Made Of This)”, Eurythmics (1983)

“Some of them want to use you”

Todo o elenco jovem de “Stranger Things” é sublime, mas o papel de Noah Schnapp como Will Byers teve as suas limitações na primeira temporada. Tudo mudou no segundo ano. Uma das principais engrenagens na narrativa, Schnapp representa as oscilações esquizofrénicas entre determinação, medo e raiva descontrolada de um rapaz possuído por um demónio com uma segurança que causaria inveja a muitos atores veteranos. Tivemos de esperar um bom bocado para o ver, mas a reserva de talento jovem desta série parece ser inesgotável.

 

“Mr. Roboto”, Styx (1983)

“The problem’s plain to see: too much technology”

Outra subtil evolução que se descortina nesta temporada é o salto tecnológico. Se no primeiro volume o potencial ilimitado para a imaginação da comunidade nerd foi representado através da mútua obsessão dos rapazes em jogar Dungeons & Dragons, desta feita é-nos introduzido o admirável mundo novo dos videojogos. A série começa num salão de videojogos e, tal como num videojogo, introduz novos níveis de crescente dificuldade. Mais um grande aliciante para especulação – saber até onde poderá chegar esta evolução nos próximos capítulos.

 

“Runaway”, Bon Jovi (1984)

“Oh, she’s a little runaway, daddy’s girl learned fast”

A Eleven é a maior. Uma das mais irrepreensíveis “badasses” da história da televisão. Mas os seus poderes, impressionantes que são, lançam também a inevitável questão: como lidar com o facto de estarem nas mãos de uma adolescente, sujeita a inevitáveis e explosivas mudanças de humor? O pobre Hopper que o diga… Esta maturação é fulcral nesta temporada, culminando no episódio 7, dedicado à sua interação com outra jovem superpoderosa, Kali. Um episódio crucial, injustamente criticado por ousar ser um pouco diferente.

 

“Islands In The Stream”, Kenny Rogers & Dolly Parton (1983)

“Hold me closer and I feel no pain”

Devo confessar que julguei mal o Bob na primeira vez que o vi. Estava plenamente convencido que se iria tornar um vilão – ou, no mínimo dos mínimos, um antagonista chato para retirar do caminho. Não podia estar mais errado. Nas mãos do irrepreensível Sean Astin, o novo namorado de Joyce Byers e mentor atabalhoado de Will tornou-se um dos mais enternecedores personagens e, surpreendentemente,  veio a revelar-se fundamental na luta contra o mal, culminando num dos momentos mais tristes da temporada.

 

“What’s Love Got To Do With It”, Tina Turner (1983)

“That it’s only the thrill of boy meeting girl”

Era genuinamente complicado perceber para onde ia caminhar a relação de Jonathan e Nancy depois do ponto em que tinham ficado. A sua ténue e confusa amizade era uma das pontas mais soltas de “Stranger Things”. Mas, tenha sido por plano prévio ou por pressão dos desejos dos fãs, a névoa foi levantada e os dois adolescentes mais perturbados e neuróticos de Hawkins finalmente ficaram juntos. O bizarro contexto em que consumaram o seu amor, na casa de um paranoico de teorias da conspiração, não podia ter sido mais adequado.

 

“Against All Odds (Take A Look At Me Now)”, Phil Collins (1984)

“How can you just walk away from me?”

O lamentável efeito secundário da consumação de Jonathan e Nancy foi o coração quebrado de Steve Harrington. Anteriormente o miúdo mais popular da escola, Steve continua a sua “queda” para o reino dos comuns mortais, culminando numa das parelhas mais hilariantes que a série já juntou – a sua aproximação ao irresistível Dustin. Relegado de estrela a babysitter de um grupo de “nerds”, nunca gostámos tanto de Steve – ainda mais quando se torna alvo de um “bully”.

 

“Rock You Like A Hurricane”, Scorpions (1984)

“The wolf is hungry, he runs the show”

Falando desse “bully”, entrou a correr na série e nunca mais ninguém o conseguiu parar – o pobre Steve Harrington ainda tentou. Criado com a intenção de dar um verdadeiro antagonismo humano à série, Billy é a verdadeira personificação da raiva descontrolada do ego masculino, bem como uma amálgama dos clichés clássicos destes personagens num filme nos anos 80. Apesar de brilhantemente interpretado, ainda não sei bem o que achar dele – o meu olho crítico terá de esperar mais uns tempos até ter uma resposta definitiva.

 

“Every Breath You Take”, The Police (1983)

“Since you’ve gone I’ve been lost without a trace”

Para terminar esta viagem musical – e porque adoro simetria – vamos falar do final. Quase tudo nesta segunda temporada de “Stranger Things” atinge-nos em todos os pontos certos no coração, mas nada está mais perfeito que o “Snow Ball”. Depois de derrotado o monstro, o desfecho que verdadeiramente interessa acontece no baile de Inverno da escola dos jovens protagonistas. Lucas é arrebatado por um beijo repentino de Max, Dustin é salvo de uma enorme humilhação por Nancy, e Mike e Eleven partilham mais um beijo, este ainda mais carregado de consequência e de possibilidades infinitas de amor por concretizar. Ainda há muitas páginas para virar nesta belíssima história, mas o encerrar deste capítulo é o bálsamo perfeito para nos consolar enquanto esperamos por mais.

 

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