Blade Runner 2049

Uma obra que não vai desaparecer como lágrimas na chuva.

 

Título original: Blade Runner 2049 (EUA, GBR, CAN – 2017)
Realizador: Denis Villeneuve
Argumento: Hampton Fancher, Michael Green
Actores: Harrison Ford, Ryan Gosling, Ana de Armas

Sempre gostei de absorver todo o tipo de histórias em miúdo, mas dois géneros de contos sempre me encantaram um pouco mais. Por um lado, sinto um fascínio especial pela atmosfera do mundo dos detetives “noir” à antiga, homens de poucas palavras e grandes ações. Por outro, o lado mais criativo da minha imaginação sempre se atraiu pela ausência de limites que existe na melhor ficção científica, no seu poder para criar novos mundos de fantasia que nos parecem, no entanto, tão reais e possíveis.

Tudo isto para dizer que o “Blade Runner” original é, pura e simplesmente, o meu filme favorito. Nenhum outro me faz sonhar, pensar, temer, imaginar. Nenhum outro me faz refletir tanto sobre a natureza da própria Humanidade, ao mesmo tempo que me entretém com uma misteriosa e imprevisível aventura. Curioso que, passado tantos anos, tenha sido a sua sequela um dos poucos filmes capazes de me fazer voltar a sentir essas mesmas emoções.

Vamos não perder tempo com eufemismos e meias-palavras: “Blade Runner 2049” é brilhante. É, para já, o melhor filme do ano (e falo como alguém que também adorou “Dunkirk”), e um sério “pré-candidato” a ver o seu nome chamado repetidas vezes na noite dos Óscares. Depois de todas as minhas hesitações e desconfianças, medos mal escondidos sobre virem remexer numa memória tão estimada da minha formação como ser humano, sinto que eu e todos os fãs do original fomos profundamente recompensados.

Começar a listar os pontos positivos deste impressionante feito poderia condenar esta crítica a tornar-se uma tese, mas vamos tentar. Primeiro que tudo, nenhum elogio é generoso o suficiente para destacar o talento de Denis Villeneuve. Depois de ter assinado um dos melhores filmes do ano passado, com “Arrival”, o realizador canadiano voltou a mostrar uma mão incrível para criar ficção científica com cabeça.

Villeneuve é acompanhado pela fotografia atmosférica e brilhante de Roger Deakins (que poderá finalmente conquistar a estatueta dourada que há tantos anos lhe escapa pelos dedos), trabalhada em conjunto com uma equipa de design de produção que re-imaginou a Los Angeles do futuro que já tinha sido concebida no original, expandindo este mundo de forma subtil e emprestando-lhe novas cores de espaços, mas sem nunca perder a sua visão distópica e empacotada de vida suja e luminosa em todos os recantos.

O elenco é também, por seu próprio direito, uma coleção invejável de talento, desde veteranos respeitados, como Harrison Ford (de regresso como o inescrutável Deckard) e Robin Wright, a relativamente jovens nomes como Ryan Gosling (todo ele carisma e determinação), Mackenzie Davis, Ana de Armas e a surpreendente Sylvia Hoeks.

Sobre a história, não há muito que eu deva (ou queira revelar), mas resta-me apontar que, se o primeiro foi uma reflexão cuidada sobre a natureza do que é ser “humano”, este também expande essa ideia, abrindo o rumo da conversa para novos ramos que sempre pensámos mas nunca antes tínhamos visto no grande ecrã.

Visualmente criativo, tecnicamente irrepreensível, impecavelmente executado. Tudo isto seriam atributos suficientes para colocar este filme no topo da hierarquia da melhor ficção científica, mas é no que deixa por mostrar que este, tal como o anterior “Blade Runner”, se eleva verdadeiramente. É um filme deliciosamente inteligente que nunca esconde o seu coração. Uma obra recheada de emoção que nos deixa a pensar sem parar. É nada menos que prodigioso. Tão maravilhoso e recheado de possibilidades como o original. Como regressar a casa e sentir que nunca de lá se saiu.

 

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