A melodia da coragem

À segunda é mais barato

 

Sou crítico, bastante crítico. Mas não de cinema. Mas é sobre isso que irei escrever neste espaço. Vão ser linhas que não respeitam os passos de Vogler nem as opiniões do Jorge Mourinha. Vão ser linhas em que as minhas opiniões se misturam com as emoções. Aquelas que um filme desperta no meu eu mais profundo. Numa camada abaixo do consciente, vá. Aquelas que me vão invadir a psique depois de comprar o meu bilhetinho e me enterrar confortavelmente na cadeira do cinema.

Primeiro vi o trailer, que me fez uns flashbacks e umas cócegas no sistema límbico. Depois vi o filme todo e voltei à escola secundária com os vinis debaixo do braço a sentir-me uma pequena moeda dentro de uma jukebox dos 80’s.

Nunca tinha ouvido falar deste filme. Percebi depois que é do ano passado. Admito a minha admiração secreta por alguns filmes britânicos que retratam estas décadas (Pride – quem não se lembra do ‘lesbians and gays support the miners?’, Trainspotting, Billy Elliot, 24 Hour Party People, …). Deve ser o meu gosto especial pela cultura musical dos 70’s, 80’s (e alguns 90’s).

A introdução já vai longa , por isso vamos ao que interessa.

“Nenhuma mulher pode amar um homem que ouça Phil Collins”. Posso até estar a ser mauzinho, mas esta já seria uma frase boa o suficiente para servir de gancho inicial de um filme e largar logo o comando no sofá. Sing Street é uma melodia, afinada e muito descontraída, que conta uma história que podia ser a de qualquer um de nós que viveu o final da infância e a adolescência na década de oitenta. Só que em Dublin.

Um puto de quinze anos, Conor (Ferdia Walsh-Peelo), cheio de problemas em casa, é obrigado a trocar de escola porque que o dinheiro começava a encolher na família de classe média (quase alta) onde nasceu. Depois do bullying da praxe, de uma cena icónica com sapatos pretos, ou a ausência deles, ao som de Clash, e um feeling de ‘what the fuck am I doing here?’, Conor vê ‘a miúda’ – Raphina (Lucy Boynton). Isto para final do primeiro dias de aulas era o bálsamo que precisava. Sim, tem de a conhecer. Sim, ela tem de reparar nele.

Então tem uma ideia brilhante, daquelas que iluminam o resto da vida. Num ataque de síndrome de D’Artagnan, quando marca três duelos para a mesma hora, diz-lhe que tem uma banda e convida-a para fazer um vídeoclip. Convence-a com um pouco de ‘Take On Me’ dos A-ah. Ui! Tenho de ficar mais um pouco. O comando não sai do lugar há um tempo.

E sabem que mais? O rapaz não tem música, nem banda, nem sequer nome. Mãos à obra! Vai ser preciso formar uma para impressionar o coração adolescente da rapariga, um ano mais velha do que ele e que tem um namorado que ouve, sim… Phil Collins.

Este filme de Jonh Carney é uma verdadeira playlist.

‘Rio’ de Duran Duran em versão videoclip aparece ao jantar e provoca um conflito de gerações entre Robert, o pai (Aidan Gillen) e o filho mais velho – Brendan (Jack Reynor), um ex-universitário que vive perdido entre discos e erva e que tem uma cultura musical de 72 rotações. Nunca serão os Beatles, diria o pai. Bom, também não era esse o objectivo. Nesta jukebox passarão ainda Hall & Oates, The Cure, Motorhead, Joe Jackson ou The Jam, para além dos originais.

Muito divertida de seguir a formação da banda e o seu amadurecimento-expresso quase instantâneo. Eamon (Mark Mckenna), um puto dos sete instrumentos com uma pancada por coelhos que compõe, Nigig (Percy Chamburuka) um teclista que quer sempre aparecer em primeiro plano nos videoclips. Darren (Ben Carolan), o manager de ocasião que também teve a sua dose de bullying, Garry (Karl Rice), baixista e Larry (Conor Hamilton) na bateria. Para além de Conor, claro, autor das letras. Eles são os Sing Street. Um bom nome, porque as alternativas seriam boas para nunca saírem da garagem.

À medida que escreve cada letra e surge cada música, a relação vai ficando mais próxima e Conor (Cosmo, como ela lhe chama) vai demonstrando ser um vocalista à altura. E, como a banda é viva, a metamorfose de Conor que passa de Bowie a Smith, por entre outras influências ao longo da história, é uma delícia.

Se Conor conquista a rapariga não vou dizer, mas que há um belo baile ao estilo Back to the Future com muita gente a dançar como se estivessem num ginásio americano, lá isso há. Até os pais que se odiavam fazem de casalinho feliz (mãe – Penny (Maria Doyle Kennedy)).

Numa ilha a história não era história se não metesse barcos e ondas e ainda dá de bónus conceitos de alegre/triste ao nível dos The Cure.

Raphina: your problem is that you’re not happy being sad, but that’s what love is,

Cosmo: happy-sad.

Todo o filme tem um punhado de boas canções (surpreenderam-me tanto como ouvir a Keira Knightley a cantar Lost Stars ou Tell me if you wanna go home em Begin Again, do mesmo realizador). Mas, provavelmente, o mais importante é ‘ter tomates’.

Brendan: Did the Sex Pistols know how to play? You don’t need to know how to play. Who are you, Steely Dan? You need to learn how NOT to play, Conor. That’s the trick. That’s rock and roll. And THAT… takes practice.

Este é um filme divertido/dramático e surpreendente que me fez ouvir os vinis daquele tempo do lado A ao Z. E o comando ficou até aos créditos finais.

Sing Street foi nomeado para um Globo de Ouro em ‘Best Motion Picture – Musical or Comedy’ e ganhou prémios em vários festivais, mas acho que merecia o Óscar para as melhores aulas de rock em vinil dadas pelo irmãos mais velho.

 

Performance ao vivo no festival de Sundance 2016

 

Trailer

Título original: Sing Street (GBR, IRL, EUA – 2016)
Realizador: Jonh Carney
Argumento: Simon Carmody, Jonh Carney
Protagonistas: Ferdia Walsh-Peelo, Lucy Boynton, Maria Doyle Kennedy, Aidan Gillen

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