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Argumento contra, argumento a favor

 

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Uma imagem vale por mil palavras, significa que diz tudo e não diz nada. Na mesma linha de pensamento estão as histórias sem uma poderosa ideia motora, dizem tudo e não dizem nada, conduzem ao vazio. Mas narrativas honestas com significado poderoso são um motor de transformação na vida de uma pessoa. Mudam a nossa cultura pela maneira original, surpreendente e significativa como expõem uma determinada verdade da realidade. A ideia aqui é olhar para os argumentos do cinema e das séries sob essa perspectiva. Argumentar contra e argumentar a favor. Nós existimos, logo argumentamos.

Argumento que não deixes passar 45 anos, vê hoje.

Este filme é uma elegante, fina e minimalista urdidura de emoções de todas as qualidades e intensidades. Isto são emoções que nos acontecem com alguma frequência na vida real, mas no cinema é raro ter experiências desta qualidade assim retratadas e com esta intensidade sublime. 45 Anos aponta ao coração e magoa.

Trata-se de uma adaptação do conto In Another Country, de David Constantine. O conto é fixe mas o filme é genial. O realizador/argumentista (Andrew Haigh) soube inspirar-se nos elementos fundamentais do conto para desenvolver um filme que é uma obra de arte. Duro. Mas obra de arte, com tudo o que isso tem de bom e terrível.

A história ocorre num único acto de noventa minutos. Carrega imenso poder significativo e emotivo, não se desperdiça um único segundo, num conjunto de eventos extremamente bem compactado e executado num ritmo perfeito. Cada palavra, cada olhar, cada gesto, cada silêncio, cada detalhe fala de uma realidade crua, dura, reconhecível, porque está impregnada de humanidade.

Estamos na semana do quadragésimo quinto aniversário de casamento de um casalinho fofo de reformados. Logo nos primeiros minutos, a vida rotineira deles é subtilmente perturbada pelas notícias trazidas por uma carta. “É só uma carta” diz o marido Geoff Mercer (Tom Courtenay). A partir daqui as imagens fluem com uma elegância cheia de tensão.

“É só uma carta do passado” revela ele no dia seguinte. Porque a chegada da carta vai contaminando o seu comportamento, e isso é revelado delicadamente em pequenas coisas da rotina diária. Gradualmente ele é tomado por lembranças e emoções do passado, mergulha nas memórias de eventos passados e um véu de mentira eleva-se deixando a descoberto um pesadelo emocional e afetivo. É só uma carta que esconde a verdade sobre o verdadeiro amor da vida de Geoff, vai descobrindo Kate, no decurso de sete dias e que culmina numa ironia dramática perfeita.

Cada cena tem um pequeno desfecho que aumenta o significado da história e cresce em carga emocional. Acompanhamos a semana do casal, dia a dia. O tempo é marcado diariamente, como que a ilustrar a espiral descendente de desilusão. Cada novo dia é um degrau mais abaixo. E esta descida é acompanhada de um crescendo de intensidade emotiva até ao clímax final.

No sétimo dia, o final chega com a força de um murro do The Mountain, como se a personagem do Game of Thrones se abatesse sobre nós, agarrasse na nossa cabecinha com as suas poderosas mãos e a esmagasse como quem esmaga um tomate.

Mas ao contrário de uma imagem com violência pornográfica, em 45 Anos a intensidade das emoções é dada através de uma sublime cena carregada de uma poética aterradora.

A expressão facial e corporal de Kate Mercer (Charlotte Rampling), em consequência da atitude farsante, cínica, do marido, é dos retratos da realidade mais bem construídos do cinema contemporâneo. Numa explosão velada, silenciosa e até elegante é-nos entregue toda a verdade e emoção numa única imagem.

Desilusão. É disso que se trata aqui. O enredo de 45 Anos retrata o percurso de desilusão da protagonista. Começa no choque com a realidade, prossegue com a negação e a tentativa de seguir com a normalidade da vida, e acaba com a aceitação por via de uma humilhação total. Este tipo de enredo é um género difícil e pouco comum, por razões óbvias ligadas ao aspeto comercial do cinema.

Enquanto que num filme de ação sabemos que, de alguma forma, no final vamos ver o super-herói derrotar o super-vilão, e isso, na cabeça de muitos, significa bons resultados nas bilheteiras, num filme que retrata a desilusão sabemos que a coisa vai acabar mal para o protagonista, o que torna este tipo de enredo pouco amigo dos investidores, preocupados em garantir o sucesso comercial.

Mas, apesar deste tipo de filme não ser comum, por um lado, hoje em dia parece que há cada vez mais mercado para todo o tipo de histórias e experiências e, por outro, muitas pessoas procuram intuitivamente experiências emocionais significativas, incluindo a desilusão, porque é uma coisa presente na vida de todos, o nosso quotidiano é tão feito de desilusões como de conquistas positivas. A necessidade de compreender uma é tão orgânica e humana como a outra. Todos gostaríamos de evitar a desilusão nas nossas vidas, mas também sabemos todos que sem desilusão não se aprende nada, sabemos quão necessária é para a evoluir.

O enredo em torno da desilusão, quando é feito com genialidade, como é este 45 Anos, abre uma perspetiva sobre a realidade que permite uma visão sobre a vida que nenhum outro género é capaz de reproduzir, e que se traduz numa experiência emocional intensa, relevante e positiva, mesmo que triste. É poesia da mais elevada tessitura, ainda que dramática.

Assim, em 45 Anos, é fácil criarmos empatia com os protagonistas e com a história. Mesmo carregando nas entrelinhas uma verdade tão dura, mas tão reconhecível e real e, por isso mesmo, significativa. No final, o filme entrega um apaziguamento com a vida, e deixa uma lançar luz sobre aspetos da vida contemporânea sobre os quais buscamos compreensão.

Como ver? O DVD está disponível na Fnac, o videoclube da NOS, da MEO também têm este filme.

Vê hoje, não deixes passar nem 45 minutos.

 

Título Original: 45 Years (GBR – 2015)
Criador: Andrew Haigh
Argumento: Andrew Haigh, David Constantine
Protagonistas: Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Geraldine James

 

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